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A Ilusão Operacional da IA: Por que a tecnologia mais avançada do século exige um retorno à essência humana.

O mercado corporativo está olhando para a Inteligência Artificial pela lente errada.

Neste sábado, imersa em um workshop de IA de altíssimo nível promovido pela MB Labs, tive a oportunidade de dar um passo atrás e analisar o ecossistema de Produto e Tecnologia sob uma perspectiva macro. Estar em um ambiente que discute a inovação com profundidade me fez enxergar um padrão perigoso que está se formando lá fora, no mercado em geral.

Enquanto a maioria discute ganhos de produtividade e o medo irracional da substituição, uma verdade muito mais complexa está passando despercebida pelos conselhos de administração.

A IA não está substituindo talentos. Ela está, paradoxalmente, expondo a falta de profundidade e exigindo um nível de maturidade cognitiva humana que poucos profissionais estão preparados para entregar.

O que vejo nos bastidores do mercado é o uso da IA como uma “zona de conforto intelectual”. Profissionais estão utilizando o poder computacional para encurtar caminhos, terceirizar o pensamento crítico e entregar resultados medianos em tempo recorde. A máquina está sendo usada para amaciar egos, não para elevar a barra da inovação.

Mas a realidade da trincheira de Produto e Design nos ensina algo fundamental: a Inteligência Artificial é, na melhor das hipóteses, um estagiário brilhante e incansável, porém absolutamente desprovido de contexto.

Imagine colocar o estagiário mais inteligente do mundo ao seu lado. Se você não tiver uma visão estratégica clara, se não souber racionalizar o problema e, principalmente, se não souber ensinar o que precisa ser feito, o que acontece? Ele produzirá lixo em alta velocidade.

Com a IA, a regra é idêntica. Para extrair o máximo da máquina, você precisa primeiro saber exatamente o que está fazendo.

Conhecimento, na era da IA, não é assistir a tutoriais de prompts. Conhecimento é a capacidade de racionalizar sobre a complexidade, aplicar a lógica absoluta e conseguir passar esse contexto adiante. É a habilidade puramente humana de ensinar.

A maior ironia da Inteligência Artificial é que ela está nos forçando, sem que ninguém perceba, a voltar a ser humanos.

Nós passamos a última década tentando trabalhar como máquinas: focados em volume, telas em massa e processos robóticos. Agora que a máquina faz o trabalho da máquina com perfeição, fomos encurralados a fazer o trabalho humano: pensar estrategicamente, conectar contextos de negócios e liderar com visão.

As empresas que liderarão a próxima década não serão aquelas com as melhores ferramentas de IA. Serão aquelas com profissionais maduros o suficiente para não terceirizarem sua própria inteligência.

A IA não é o fim do Product Designer ou do estrategista. É apenas o fim de quem trabalhava no piloto automático.

Rafaella Ott
Rafaella Ott
http://rafaellaott.com.br
Rafaella Ott é designer e estrategista de produto. Atua onde design, negócio e cultura se encontram, transformando visão em estrutura, ideias em estratégia e design em liderança. Com uma trajetória que une prática e pensamento, Rafaella investiga como o design pode operar como força estratégica capaz de escalar times, amadurecer operações e gerar impacto real em produtos e organizações.